Marchon Works em Whitehaven: 1939–2005, fosfato do Marrocos e o complexo químico de Cumbria
Da garagem em Hensingham aos cargueiros de fosfato do Marrocos: a expansão, o auge e o fechamento da Marchon Works em Whitehaven.
Marchon Products: de Londres a Whitehaven
Em 1939, Frank Schon, que mais tarde se tornaria Lord Schon, e Fred Marzillier registraram a Marchon Products Ltd. e instalaram um escritório em Londres. Com a intensificação da Blitz, os dois transferiram a operação para West Cumbria e recomeçaram em Whitehaven.
Em 1941, a produção química começou de forma bastante modesta: blocos acendedores feitos de serragem, resíduos da destilação de carvão e naftaleno. A primeira “fábrica” foi a garagem da casa de Schon em Hensingham. Depois vieram instalações em Swingpump Lane e um pequeno armazém em Whitehaven, o Guinea Warehouse, em Newtown.
Em 1943, a operação passou para sete acres do terreno em Kells. No ano seguinte foi comissionada a planta S1, primeira unidade dedicada a intermediários para produtos de higiene. Em 1949, Sir Stafford Cripps inaugurou um complexo de armazéns de 50 mil pés quadrados e novos escritórios.
Solway Works, fosfatos e ácido sulfúrico nos anos 1950
Em 1952, Lord Adams marcou o início das obras da Solway Works, planta de ácido sulfúrico e cimento. A primeira unidade de fosfato foi comissionada em 1953. Em 1954 entrou em operação a primeira planta de álcool graxo, inaugurada por Sir Henry Tizard.
Em 1955 foi aberta a mina de anidrita, que permaneceu em operação até meados da década de 1970. No mesmo período, o Duque de Edimburgo visitou a Marchon, e as duas primeiras plantas de ácido sulfúrico entraram em funcionamento. A Albright & Wilson comprou a Marchon Products Ltd., enquanto a Marchon Italiana foi registrada.
Em 1957 foi construído o primeiro navio dedicado ao transporte de rocha fosfática entre Marrocos e Whitehaven, o Marchon Trader. Também foram abertas as plantas de aditivos de óleo e Eltesol. Marzillier deixou a direção executiva.
Tecnologia de Whitehaven e expansão internacional
Nos anos 1960, a Marchon deixou de ser apenas um complexo de Whitehaven. A fábrica de Castiglione, da Marchon Italiana, abriu em 1961; naquele mesmo ano entrou em operação a planta F3 de ácido fosfórico e foi construído o segundo navio, Marchon Enterprise. Em 1962 abriu a terceira planta de ácido sulfúrico e surgiu o Marchon Venturer.
Em 1963, tecnologia desenvolvida em Whitehaven foi usada em duas fábricas de detergentes na Rússia. Uma nova unidade de álcool graxo foi construída em 1964. Em 1966 veio o primeiro Queen’s Award for Export Achievement e Frank Schon foi nomeado cavaleiro. Em 1967 abriram a quarta e a quinta plantas de ácido sulfúrico. A planta F4 de ácido fosfórico começou a operar em 1968 e a Marchon France foi registrada. Em 1969, a fábrica francesa iniciou a produção e a empresa recebeu seu segundo prêmio por exportações.
O auge dos anos 1970
Em 1972, Frank Schon tornou-se barão. Uma segunda fábrica abriu na Itália, em Frosinone, e outra na Espanha, em Alcover. No ano seguinte, a divisão Marchon, com sede em Whitehaven, recebeu responsabilidade por negócios agrícolas da Albright & Wilson e por empresas e escritórios comerciais no exterior.
A produção de ácido sulfúrico começou a migrar da rota baseada em anidrita para a queima de enxofre líquido. Em 1975, Whitehaven tornou-se sede do grupo de Detergentes e Químicos da Albright & Wilson, responsável por dez fábricas britânicas, sete no exterior e uma rede mundial de vendas.
Em 1976 abriu a primeira planta de purificação de ácido fosfórico, conhecida como MO Plant. O último forno do sistema ácido sulfúrico/cimento foi desativado, e todo o ácido sulfúrico passou a ser produzido a partir de enxofre líquido. A quarta planta de tripolifosfato de sódio, DS4, transformou a Marchon Works na maior produtora mundial desse material em um único local.
Em 1978 a Tenneco assumiu controle total da Albright & Wilson. Em 1979 foram comissionadas a segunda planta de purificação de ácido fosfórico, MMO, e a quinta planta de ácido fosfórico por via úmida, F5.
Da mina no Marrocos ao cais de Whitehaven
O ácido fosfórico era fabricado reagindo ácido sulfúrico produzido no próprio complexo com rocha fosfática importada principalmente do Marrocos. Pequenas quantidades também podiam vir de outros países, como Israel. Inicialmente, todo o ácido era destinado à fabricação de tripolifosfato de sódio, componente usado em formulações de detergentes; depois, parte da produção passou por purificação adicional para outros mercados.
Em 1981, o Marrocos era o maior exportador de rocha fosfática do mundo ocidental. A qualidade do minério era adequada ao chamado processo úmido de fabricação de ácido fosfórico. Os principais depósitos usados pela Marchon ficavam em Khouribga e Youssoufia.
As primeiras remessas saíam de Khouribga pelo porto de Casablanca. Com a entrada da F5 em Whitehaven, os carregamentos passaram cada vez mais a vir de Youssoufia pelo porto de Safi. De Khouribga a Casablanca, a rocha seguia em vagões de 50 toneladas, formando trens de 65 carros. Youssoufia ficava cerca de 70 km a leste de Safi, e os trens para o porto podiam ter 78 vagões, somando aproximadamente 3.900 toneladas.
Os cargueiros e as barcaças Odin e Marchon Enterprise
Em 1982, a rocha era transportada para Whitehaven em cargueiros fretados da A/S Bulk Handling, de Oslo. O carregamento no Marrocos podia alcançar cerca de 2.000 toneladas por hora. A frota usada incluía navios de aproximadamente 19 mil, 26 mil, 34 mil e 38 mil toneladas de capacidade.
| Capacidade | Navios citados |
|---|---|
| 19.000 t | Bagru, Bahma, Biakh, Bangor, Bani, Havfru, Havman |
| 26.000 t | Bakar, Bakja, Balao, Ber, Blix, Havtroll, Stavern, Trym |
| 34.000 t | Bardu, Bauchi |
| 38.000 t | Haverne, Havfalk |
Os navios de 19 mil toneladas eram os usados com maior frequência. Casablanca ficava a cerca de 1.300 milhas de Whitehaven e a viagem costumava levar quatro ou cinco dias. Safi ficava aproximadamente cem milhas além, com travessia típica de cinco dias.
Mesmo os menores desses cargueiros eram grandes demais para entrar no Queen’s Dock. Por isso, ancoravam a pouco menos de três milhas da costa. A carga era transferida para embarcações menores, principalmente Odin e Marchon Enterprise, que faziam os últimos quilômetros até o porto.
O Marchon Enterprise, pertencente à Albright & Wilson e construído em 1961, trazia normalmente cerca de 2.150 toneladas por viagem, podendo chegar a aproximadamente 2.400 dependendo da maré. O Odin, uma barcaça motorizada de 1968 projetada para esse transbordo, transportava em média 2.700 toneladas e podia atingir 3.400.
Queen’s Dock, silos e transporte até a fábrica
No Queen’s Dock, duas gruas equipadas com garras mecânicas de quatro toneladas descarregavam as barcaças. A rocha caía num funil radial móvel e seguia por três correias transportadoras em série até dois grandes silos de concreto. A taxa de descarga chegava a 400 toneladas por hora, limitada pela capacidade das correias.
Em 1981, cerca de 520 mil toneladas de rocha fosfática foram enviadas do Marrocos para a Marchon. Os silos, erguidos em 1964, comportavam aproximadamente 3.100 toneladas cada. O material saía por baixo para caminhões que percorriam cerca de duas milhas até a fábrica.
Dentro do complexo, os caminhões descarregavam diretamente nas plantas de ácido fosfórico ou em grandes edifícios de armazenamento. A capacidade incluía mais de 31 mil toneladas no depósito da F5, conhecido como “Cathedral”; 35 mil no Clinker Building; 30 mil no Miag; 18 mil no “Rock Blister”; e instalações menores com cerca de 4 mil toneladas cada.
Purificação e modernização nos anos 1980
Em 1980, o complexo de ácido fosfórico formado pela F5 e pela unidade MMO foi oficialmente inaugurado pela rainha. Em 1984 entrou em operação a terceira planta de purificação, UFEX. Em 1987, a unidade MO, ampliada e modificada, reabriu como MOS. Parte das operações comerciais foi transferida para Birmingham durante uma reestruturação do grupo. Em 1989 foi inaugurada uma expansão da planta de aditivos de óleo.
Pressão ambiental e fechamento da rota do fosfato
Nos anos 1990, a preocupação ambiental ganhou peso. Em 1990 foram investidos cerca de £6 milhões na redução de emissões de poeira e vapores, e foi publicado o primeiro plano ambiental. A Greenpeace realizou ações contra o complexo e chegou a bloquear o tubo de descarga.
Em 1992, a planta F5 foi fechada. Entraram em operação sistemas de tratamento e aterro, e cessaram as descargas de gesso e metais pesados ligadas à fabricação de ácido fosfórico. Os silos de Whitehaven Harbour foram demolidos em 1992.
O encerramento da F5 também acabou com os carregamentos de rocha fosfática. A Odin e a Marchon Enterprise foram retiradas de serviço. Sem aquela movimentação, o porto perdeu sua maior fonte de receita comercial, mas a redução da atividade industrial abriu caminho para a transformação posterior do porto em marina.
A partir daí, a Marchon passou a comprar ácido fosfórico “verde”, ainda impuro, no Marrocos. O produto chegava pelo Prince of Wales Dock, em Workington, e seguia de caminhão-tanque até Whitehaven. Tanques que antes guardavam enxofre fundido foram convertidos para armazenar ácido fosfórico.
Rhodia, Huntsman e o encerramento do complexo
Em 1994, a Albright & Wilson voltou à Bolsa de Londres como empresa independente. Em 1997, um projeto de £8,5 milhões ampliou a capacidade de PWA em 30 mil toneladas anuais. Em 1999, a francesa Rhodia assumiu a companhia.
As atividades de fosfato em Whitehaven foram reduzidas em 2000 e encerradas. Em 2001, a americana Huntsman comprou da Rhodia as plantas de surfactantes. Essas operações também foram gradualmente reduzidas, deixando o local praticamente fechado em 2005.
No auge, a Marchon Works ocupava cerca de 133 acres, ou 54 hectares, chegou a empregar aproximadamente 2.500 pessoas, foi a maior produtora europeia de ácido sulfúrico em um único local e a maior produtora mundial de tripolifosfato de sódio em uma única unidade industrial. A rota Marrocos–Whitehaven, os silos do porto, as barcaças e as plantas químicas formaram um sistema industrial integrado que marcou a cidade durante mais de seis décadas.
Prêmios, gestão e mudanças ambientais
A cronologia da Marchon também registra mudanças de gestão e reconhecimento externo. Em 1966 veio o primeiro Queen’s Award for Export Achievement; em 1969, o segundo; e em 1975, o terceiro. Em meados da década de 1970, Whitehaven já funcionava como centro de comando de um conjunto internacional de fábricas, escritórios e agentes. A Marchon Division também recebeu por alguns anos a responsabilidade pelos negócios agrícolas da Albright & Wilson em Lincolnshire, posteriormente vendidos no início dos anos 1980.
Em 1991, a reorganização administrativa do complexo veio acompanhada pela introdução de sistemas computadorizados de processamento de pedidos, planejamento de produção e manutenção de engenharia. Foi também um período de tensão ambiental crescente. A Greenpeace abriu processo privado contra a empresa e bloqueou o tubo de descarga. Entregas por caminhão-tanque foram terceirizadas.
Em 1992, além do fechamento da F5, abriram uma planta de tratamento de raffinate e um aterro industrial. As descargas de gesso e metais pesados associadas ao ácido fosfórico foram eliminadas e o programa BS5750 foi concluído para o local. A demolição dos silos do porto marcou fisicamente o fim da antiga cadeia de transporte de rocha.
Por que a rota da rocha fosfática deixou de fazer sentido
O fechamento da F5 não teve uma única causa. A unidade tinha cerca de treze anos e trabalhava em condições químicas agressivas; uma vida econômica de dez anos já era considerada razoável para equipamentos desse tipo. Substituí-la exigiria grande investimento, ao mesmo tempo em que as antigas plantas de ácido sulfúrico também precisariam de modernização.
Havia ainda uma mudança no próprio mercado. O Marrocos já fabricava ácido fosfórico havia anos. Para Whitehaven, tornou-se mais racional comprar o ácido pronto do que transportar centenas de milhares de toneladas de rocha, fabricar grandes volumes de ácido sulfúrico, reagir os dois produtos e administrar os resíduos do processo.
Essa mudança explica por que o fim da F5 afetou muito mais que uma planta. A demanda por ácido sulfúrico caiu, duas das três unidades de queima de enxofre foram fechadas, os navios de transbordo perderam sua função e a infraestrutura portuária dedicada à rocha deixou de ser necessária. O encerramento de uma etapa química desmontou, em cadeia, um sistema logístico que ligava minas no interior do Marrocos, portos atlânticos, cargueiros noruegueses, barcaças em Whitehaven, silos, caminhões e plantas de processo.